TERRORISMO NO APARTAMENTO

É desagradável ter que colocar peido, gases, bufa, como assunto de um texto. Não sou o primeiro e nem serei o último a colocar tão um tema tão esdrúxulo em uma crônica. Mas deixemos de lado esse bolodório e vamos ao que interessa.
O casal morava no apartamento 208. Quando os dois brigavam saia ofensa tão pesada de deixar casca de ovo arrepiada.
- Seu vagabundo descarado!
- Vagabunda é você
- Você casou comigo para sair da miséria, você e sua família viviam passando fome.
- Cale a boca sua piranha ou eu lhe quebro a cara!
Deu para perceber o nível da discussão? Isto apenas no começo das brigas. Quando a raiva aumentava, os dois espumavam e não sobrando mais palavrões cabeludos para se xingarem, partiam para agressão na base da troca de peidos. Estão espantados? Pois essa é a mais pura verdade. Agrediam-se trocando peidos como quem troca tiros.
Os peidos estouravam parecendo bombas;.
Cada um mais fedorento que o outro. Verdadeiros rojões.
Cada peido vinha acompanhado de um grito raivoso.
- Pum, tome este nos peitos...
- Pá, se defenda deste...
- Pá, pá, pá, desvie deste...
- Pum, pum, pum, cê é bom corra deste...
O caldo entornava de vez. Um correndo atrás do outro na sala, na zonzinha, no banheiro, na varanda, nos quartos e tome gases mau cheirosos.
Num domingo logo cedo, a briga foi grande. O mau cheiro ultrapassou todos os limites. O barulho e o pipoco se faziam ouvir nos apartamentos vizinhos.
- Que diabo é isso? Será que é tiro? Perguntou um morador do apartamento em frente.
- Tá parecendo troca de tiro entre quadrilhas de traficantes. Disse outro vizinho.
- Será que é a polícia perseguindo algum bandido? Quis saber uma semhora.
- O som é de rajada de metralhadora, afirmou um policial morador do condomínio.
O negócio ficou cada vez mais intenso. Os pipocos continuaram cada vez mais fortes. A fedentina saiu pela janela, invadiu os outros apartamentos, contaminou todo o condomínio. Sufocados, os moradores começaram a passar mal, uns vomitavam, outros eram acometidos de falta de ar. Ouviam-se gritos de socorro vindo de vários apartamentos. Vários moradores do prédio ligaram para policia e para o corpo de bombeiros. Em pouco tempo chegaram diversas viaturas. Os policiais postaram-se em frente ao edifício, ouviram atentamente os pipocos dos peidos e os gritos no apartamento do casal de brigões. Depois de alguns minutos de confubalações resolveram botar cães farejadores para abrirem caminho. Coitados dos cães!
Começaram a farejar, passaram mal, andavam em círculos de forma estranha, tontos, soltando latidos indolentes, trôpegos, aboba-lhados, sem ânimo, como se estivessem doentes. Deitavam-se totalmente desmilinguidos, sem forças nem para uivar. Os policiais deso-rientados, concluíram que os disparos no apartamento saiam de alguma arma poderosa capaz de fazer cães bem treinados perderem o rumo. A cada momento a situação piorava. E para piorar ainda mais, o porteiro do condomínio desmaiou. Foi um corre-corre danado. O homem teve que ser levados de ambulância as pressas para o hospital mais próximo.
Os policiais ligaram para o comando, informaram o que estava acontecendo, pediram reforços e instruções. “O negócio aqui está mais grave do que a gente pensava, a substância tóxica é muito forte, pra se ter uma idéia, os cães farejadores, mal começaram a farejar e desmaiaram. Estão aqui quase mortos. Vão precisar passar por um tratamento de de-sintoxicação. Isso se ainda for possível salvar a vida deles.”
O comando da policia alarmou-se. Na sua longa carreira não tinha conhecimento de algum episódio no qual os cães farejadores chegassem a estado tão lastimável. A coisa realmente parecia ser muito grave. Seria preciso montar uma operação de urgência. Identificar de onde vinha aquele gás venenoso. Se aquilo se espalhasse pela cidade poderia ocorrer uma mortandade enorme, de proporções catastróficas.
Enquanto isso no apartamento o tiroteio continuava cada vez mais forte:
Pum - Corra desse
Pam - Fuja desse
Pou - Cê é bom se esconda desse
Pá - Quero vê você suportar esse
Pô - Nesse agora você desmaia
Ta - Esse vai lhe deixar sem fala
Ta - Esse é pra deixar você ruim do juizo
Tum - Com esse você vai ficar cego
Tum - Quero vê você lembrar seu nome depois desse
Pum - Esse aqui é pra pedir divórcio
Pam - esse aqui é pior do que traição
Diante daquela saraivada e do mau cheiro que dominava a área, o comandante do policiamento agiu rápido, convocou o serviço medico e ambulâncias para retirar, com urgência, as pessoas que estavam passando mal. Uma equipe de especialistas da USP foi chamada para dar um parecer técnico sobre aquele odor que empestava o ar. Atiradores de elite se posicionaram em pontos estratégicos prontos para entrarem em ação a qualquer momento.
O assunto vazou para a imprensa. Em poucos minutos um cardume de jornalistas também cercavam o prédio iguais a peixe em torno de um farelo de pão. Fotógrafos, repórteres de rádio, repórteres de TV, blogueiros, paparazzis, vendedores ambulantes e uma multidão de curiosos provocavam uma aglomeração nunca vista naquelas bandas. A policia interditou o tráfego e fez um cordão de isolamento tentando reduzir a confusão.
Ninguém sabe como, rapidamente espalhou-se a noticia de que os tiros no apartamento faziam parte de uma ação promovida por uma facção terrorista ligada a Osama Bin Laden. Segundo esta versão o Brasil estaria sendo atacado por fazer parte do ranking dos países mais corruptos do mundo.
A TV, a toda hora entrava ao vivo, mostrando a confusão e orientando a população a abandonar a cidade o mais rápido possível.
O País estaria sendo atacado por homens bombas de Bin Laden. A suspeita da polícia é que os terroristas se entrincheiraram no apartamento, tendo em seu poder armas de destruição em massa, de onde saia um odor muito parecido com o do gás sarin. Um gás venenoso capaz de matar grande número de pessoas em poucos minutos. As autoridades atônitas pediam que todos se escondessem nas montanhas, se embrenhassem no sertão, fugissem para os Andes ou para o Pico da Neblina, mergulhassem no Rio São Francisco ou no Araguaia e lá ficassem imitando jacaré até que o efeito do tal gás passasse completamente. Quem descumprisse estas ordens poderia ir até a próxima funerária encomendar o paletó de madeira.
Como era de se esperar, depois destas notícias um clima de pânico tomou conta da cidade. Famílias inteiras, deixavam bens e objetos pessoais, enfiavam as crianças nos carros e fugiam desesperadas para qualquer lugar. O importante, naquele momento, era salvar a vida. O resto se veria depois. O troço ficou tão complicado que parecia um estouro de boiada. Morreu gente pisoteada, os aeroportos registraram uma superlotação com meio mundo tentando fugir do País, super-engarrafamentos nas estradas, acidentes com centenas de mortes por todos os lados. O pais quem sempre foi um caos ficou muito mais caótico ainda.
O Ministro da defesa, abalado com a noticia pediu ajuda à CIA e ao FBI. O presidente dos Estados Unidos manifestou seu apoio ao Brasil e se comprometeu a enviar uma força tarefa para ajudar a combater os supostos terroristas. O Presidente da República, os governadores, prefeitos, deputados e senadores esconderam-se num abrigo subterrâneo, a prova de bombas, construído as pressas.
Para aumentar ainda mais o pavor da população circulavam boatos de que teria chegado a uma emissora de TV uma fita com a voz de Bin Laden estabelecendo as condições para não atacar o Brasil. Segundo os boatos Bin Laden exigia, imediatamente, 20 virgens para serem entregues aos homens bombas. Eles já não estariam dispostos a só terem virgens no céu, depois de mortos.Queria desfrutar das virgens antes de se explodirem. Ao saber da notícia o presidente convocou os ministros e deu-lhes a ingrata tarefa de procurar 20 virgens para satisfazer as ordens de Bin Laden. Ai é que estava o nó do problema: nestes tempos modernos onde arrumar virgens?
Enquanto isso, embaixo do prédio, os policiais se posicionavam para invadir o apartamento. Os pipocos continuavam intensos e cada vez mais fedorentos. O Grupo de Ações táticas preparou a estratégia de invasão e partiu para colocar o plano em ação. Os policiais subiram cautelosamente, um grupo pela escada e outro pelo elevador, alguns subiram pendurados em cordas estendidas ao longo do prédio.
A ação deveria ser rigorosamente simultânea. Não poderia haver falha, a vida da população estava em jogo, todo cuidado seria pouco. Depois de alguns minutos de tensão, quebraram a porta, invadiram o apartamento com grande estardalhaço. De cara, 20 policiais desmaiaram com o mau cheiro. A tropa recuou alarmada, falou mais alto o instinto de sobrevivência do que os atos de bravura “Os terroristas são perigosos e parecem estar bem armados e dispostos a tudo, é impossível entrar no apartamento com aquele mau cheiro, 20 homens da nossa corporação estão lá dentro caídos, não sabemos se estão desmaiados ou se vieram a óbito ao entrarem em contato com o gás venenoso”, disse o comandante cercado por um mar de microfones das emissoras de TV. Para organizar um segundo ataque foram necessárias mascaras especiais enviadas pela NASA.
Só assim a policia pode finalmente invadir o apartamento. “Policia! Não reajam! Se entreguem, estão cercados. Deponham as armas. Parem de atirar! Desativem as bombas”, berrou o chefe do esquadrão.
“Bombas? Que bombas? Não temos bomba nenhuma. Só estamos trocando peidos” disse o marido, tremendo de medo ao ver todo aquele aparato policial e dezenas de armas apontadas para ele e a esposa.
O casal de peidões foi algemado, os policiais ostentando cara de heróis, desceram empurrando os dois escada abaixo e ambos foram apresentados a imprensa.
- Prendemos os dois perigosos terroristas, salvamos a vida de milhares de pessoas, discursou o comandante diante das câmeras e microfones.
Os repórteres não perderam tempo e sapecaram uma série de perguntas:
- Que gás venenoso vocês estavam usando?
- O que Bin Laden ordenou a vocês?
- Qual o motivo da invasão do Brasil?
- Que veneno tão poderoso vocês usavam que fizeram 20 policiais desmaiarem e até os cães farejadores estão desmaiados até agora?
- A que organização terrorista vocês pertencem?
- Quais são as suas reivindicações?
O casal sem entender nada daquelas perguntas, tentava explicar que estava apenas executando uma troca de peidos durante uma briga com raiva um do outro mesmo assim não conseguia articular uma explicação diante daquele bombardeio de perguntas e daquele mar de microfones. Jamais poderiam imaginar que coisas tão prosaicas como peidos se transformassem num tumulto tão grande.
Foram colocados no carro da polícia. A viatura partiu cantando pneus, seguida por um comboio. A TV mostrava tudo ao vivo.
Na delegacia o casal pode enfim escalrecer o que, realmente, havia ocorrido. No dia seguinte todos os jornais saíram com a inusitada manchete:
PEIDOS PROVOCAM FUGA EM MASSA DA POPULAÇÃO.
Roberto de Sena, nasceu em Barreiras. Estudou na Escola Osvaldo Cruz, quando ainda era em Barreirinhas. Depois Antonio Geraldo, Escola Polivalente de Barreiras, Colégio Batista e Padre Vieira. Fez letras na UNEB áté o quinto semestre. Parou por força de trabalho mas pretende retornar. Seu ganha pão com o suor do rosto é marketing político que aprendeu fazer, fazendo. É casado e tem uma filha.
Publicou os livros:
POR INCRESÇA QUE PARÍVEL - Poesia - 1983
A VIAGEM DOS VERSOS - Poesia - 1990
A ASA DA PALAVRA - poesia - 2003
A LAMINA DE CORTAR SILENCIOS - Poesia - 2006
Para publicação:
VISSUNAGEM - Crônicas
O MATADOR DE JEGUES - Saga nordestina
O SUOR DO CÉREBRO - Poesia